Onde o Sagrado e o Profano se encontram

Uma das características mais importantes da mente humana é classificar as coisas, especialmente de forma dicotômica: bem e mal, claro e escuro, sagrado e profano. Obviamente, quanto mais simplista a classificação usada maior é a chance de agruparmos, sobre a mesma classe, coisas que são diferentes. Por essa razão, as classificações dicotômicas são bastante discutíveis, em especial quando acreditamos que uma observação mais atenta revelará mais classes e diferenças.

Esse é exatamente o caso daquilo que classificamos entre sagrado e profano. Numa observação rápida, qualquer coisa poderia ser rapidamente definida entre essas duas categorias. Ir à missa no domingo é sagrado e ir numa balada no sábado à noite é profano.  Beijar a mão do padre é sagrado e beijar sua menina na rua é profano. Mas, curiosamente, há um exato lugar onde o sagrado e o profano se encontram e tornam-se a mesma coisa. Dentro do seu cérebro.

Ontem, a revista científica Social Neuroscience publicou um estudo do Dr. Jeffrey Anderson da Universidade de Utah¹ que, a partir de imagens obtidas por ressonância magnética funcional do cérebro de 19 mórmons praticantes (12 homens e 7 mulheres), mostrou a ativação de uma área cerebral responsável pela classificação de eventos recompensadores no exato momento em que esses religiosos referenciavam estar vivenciando uma experiência sagrada. Colocados no aparelho de ressonância magnética, esses indivíduos foram estimulados a realizarem quatro tarefas consideradas como experiências espirituais. Uma das áreas ativadas nesse experimento é exatamente a mesma que já havia sido verificada durante a atividade sexual, ingestão de alimentos altamente calóricos, a prática de jogos de azar e uso de drogas psicoativas. Essa área, chamada de núcleo acumbente (ou acumbens), é onde há importante liberação de dopamina quando vivemos circunstâncias com grande valor motivacional. Os resultados apresentados agrupam em um mesmo significado cerebral coisas que aqui na sociedade estão classificadas em posições diametralmente opostas.

Como considerar, do ponto de vista do julgamento social, que pessoas que estão completamente envolvidas pela sua religiosidade e pelas experiências sagradas proporcionadas pelo contato divino estão tendo as mesmas ativações cerebrais e valências emocionais que um usuário de droga ou um jogador compulsivo?

De uma certa forma, esses resultados não são nada surpreendentes. Se considerarmos que todas essas experiências, sagradas ou profanas, tem o poder de provocar uma repetição de comportamentos (chamada de estreitamento de repertório comportamental), tudo isso poderia mesmo ser colocado no mesmo saco de gatos. E é exatamente por essa razão que as pessoas defendem com o mesmo afinco suas posições quando se encontram nesse grau de envolvimento com algum comportamento. Da mesma forma que é praticamente impossível apresentar os malefícios do uso de drogas para um usuário de crack e convencê-lo a mudar seu comportamento, é muito difícil fazer uma pessoa extremamente religiosa procurar ver outras possibilidades como a evolução das espécies ou um questionamento que alguém possa ter sobre a existência de um criador.

Também deve ser por essa mesma razão que podemos combater vícios profanos com experiências sagradas. Muitas religiões afirmam terem estratégias poderosas para curar dependentes químicos e pessoas compulsivas. E, nesse ponto, verificar que os estímulos religiosos podem ativar as mesmas regiões cerebrais responsáveis pelos prazeres mundanos, é uma descoberta incrível e muito significativa para justificar a religião como uma ferramenta eficaz para o tratamento dessas mazelas graves que afligem a sociedade. Só fica um alerta: que essa não seja apenas uma estratégia de substituição de um vício pelo outro.

¹ – http://unews.utah.edu/this-is-your-brain-on-god/


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