O dia em que seu cerebelo aprendeu a ler e a escrever…

Se você consegue ler este texto, parabenize seu cerebelo!
Estudos atuais apontam que o cerebelo foi ressignificado na “hierarquia”!
Passou de equilibrista e malabarista à coordenador do picadeiro todo!
Isso porque, se antes atribuíam a ele apenas participação na modulação motora através da detecção do erro e reformulação do movimento em uma nova execução, impedindo que o mesmo seja repetido (refinado pelo treino), estudos atuais apontam seu envolvimento como modulador em outras funções cognitivas, através da antecipação, planejamento e sequenciamento do que é aprendido.
Engana-se quem pensa que nosso cérebro é pré programado à leitura e escrita: nossos córtecis de primatas enfrentaram um árido processo de neuroplasticidade para dar conta de criar símbolos, que representam sons, que por suas vez, unidos, representam palavras, utilizadas para designar algo. Decodificá-los, como pertencentes de dado grupo, outros tantos. Além de tudo, interpretar, compreender, fazer inferências.
Este foi um caminho percorrido por nossos ancestrais, da expressão pictográfica ao uso da escrita e também é vivenciado pelas crianças, em seu próprio processo.
Para ler e escrever, todas as regiões do córtex precisam ser ativadas: pré frontal (ato motor, linguagem, memórias de curto e longo prazo), temporal (audição), occipital (visão) e parietal (sensações táteis), além da necessidade de integrar e conectar informações advindas de palavras, sílabas, fonemas e grafemas de forma intencional, organizada, conectado sígno a significado, de acordo com um modelo, em dado contexto de tempo, espaço, cultura…
Parece complexo?
Pois há, ainda, uma evolução em sua motricidade, cujo processo se inicia desde o nascimento, ou, ouso dizer, até anterior a ele.
O reflexo primitivo de preensão palmar, involuntário, gradativamente, se aperfeiçoa, de movimentos ocasionais e espasmos ao controle dos movimentos das próprias mãos:  a necessidade de um planejamento motor ativa a região sensório motora do córtex, que, através dos núcleos ventrais do tálamo e núcleos da base (Corpo estriado, globo pálido, substância negra e núcleos subtalâmicos), enviam informações eferentes ou aferentes (ora excitórias, ora inibitórias),  através da comunicação de neurônios motores da medula e músculos.  Pensem o quanto nossos gânglios basais, tálamo e zonas corticais precisam trabalhar para, receber informações sensoriais e próprioceptivas, para dar conta de tornar o ato motor algo modulado, voluntário e intencional.
Ora, se o cerebelo, é o responsável por detectar erros e corrigi-los, sua função, neste caso, é fazer com que estes movimentos ganhem intencionalidade e precisão.
E que longo percurso neuromotor nossos alfabetizantes desbravam: das mãozinhas fechadas ao movimento de pinça e habilidade de manipulação das falanges, para produzir algo, que insere o ser humano em outro patamar de representações do mundo.
Justamente porque ler e escrever não se trata apenas de codificar e decodificar sílabas, que Emília Ferreiro, em seus estudos sobre a psicogênese da língua escrita, emergiu a discussão sobre a eficiência das cartilhas: Papudo é o nome do pato é, justamente, uma decodificação alheia ao uso real e social da linguagem escrita e, portanto, retira o cerne de seu propósito.
Desde muito pequenas, as crianças percebem rótulos, placas, veem pessoas de seu convívio escrevendo bilhetes, listas de supermercado, anotar lembretes.  Então, passam a fazer suas próprias anotações, que evoluem à medida em que, segundo Emília Ferreiro, refletem sobre suas hipóteses de escrita, que seguem fases regulares: pré silábica, que vai desenhos à utilização de letras aleatórias; silábica, onde percebe que existe correspondência entre fonema e grafema, entretanto, utiliza apenas uma letra do fonema para escrevê-lo; silábico-alfabética, em que, ora utiliza uma letra, ora registra a sílaba complete e, por mim, alfabética, em que sua produção é bastante semelhante à convencional.
Pois bem, se tratamos a escrita e a leitura como processo de construção endógena – onde o aprendiz, pelo levantamento de hipóteses, detecção do erro, reformulação e constatações é autônomo em seu próprio processo de concepção – é impossível dissociar a participação da regulação cerebelar neste processo.
Através da mediação do professor em suas produções, em forma de perguntas sobre a intencionalidade em cada forma de escrever e propostas pautadas nas peculiaridades de cada fase, de modo a desequilibrar a certeza de sua produção naquele momento, é que cada aluno reestrutura sua forma de pensar sobre ela, readaptando-a, até refiná-la de forma tal a escrever convencionalmente.
E é por esta razão, é comum que, ao perguntarmos àqueles alfabetizados desta forma, crianças ou adultos, “quem o ensinou a ler e escrever?”, as respostas sejam ”aprendi sozinho(a)?”: cada qual, protagonista em seu processo.
Portanto, chegou o momento “miss universo”: agradeça aos seus antepassados, ao seu contexto social, ao seu córtex, à evolução de todo seu sistema motor, aos seus professores e ao seu cerebelo por ter chegado até o fim deste texto!

Autor: Daniela Maria Valério Coelho

Avaliação da disciplina – Motricidade
Profa. Dra. Carla Tieppo
Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa De São Paulo
Setembro / 2016

Referências bibliográficas:
DAHAENE, S. Os neurônios da leitura: como a ciência explica a nossa capacidade de ler. Porto Alegre: Penso, 2012.
FERREIRO, E. Alfabetização em processo. 7a edição. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1991.
FERREIRO, E & TEBEROSKY, A.  Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.
FERREIRO, E. & PALACIO, M. G. Os processos de leitura e escrita: novas perspectivas. 3a edição. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.
FIEZ, J. A. (Outubro, 2016). The cerebellum and language: persistent themes and findings.  Elselvier, Brain and Language. Volume 161.

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