Neurociência e as práticas cotidianas na educação de nossos filhos

Uma das últimas fronteiras do conhecimento que parecia até pouco tempo difícil de ser transposta, começa a ser atingida a partir do desenvolvimento de modernas técnicas da observação do cérebro humano em funcionamento. Estes conhecimentos fazem parte da Neurociência e estão sendo cada vez mais aplicados em diversas áreas de conhecimento para contribuir com o avanço destas áreas. Na educação isso não poderia ser diferente. Em especial porque políticas de inclusão de crianças especiais impulsionaram professores e pedagogos na direção do entendimento mais profundo do funcionamento cerebral para o desenvolvimento de técnicas inclusivas mais eficientes. Porém, neste artigo, vamos falar de alguns conhecimentos que foram desenvolvidos na Neurociência e que podem favorecer os processos de aprendizagem para todas as crianças.

Vivemos um tempo em que os percentuais de crianças afetadas por distúrbios de aprendizagem crescem ano após ano. Com certeza, nosso crescente entendimento sobre estes distúrbios favorecem um diagnóstico mais apropriado e podem fazer com que alguns casos que antes eram difíceis de serem abordados sejam hoje mais facilmente diagnosticados. Mas, não podemos deixar de pensar que as mudanças que assistimos nestes últimos vinte anos na forma em que nossa sociedade se organiza e nossas mudanças de hábitos não sejam também uma das causas deste aumento vertiginoso de diagnósticos de déficit de atenção, hiperatividade, transtornos de conduta, dislexias e discalculias, entre outros.

Até a década de 80, a novela das oito (que agora já é das nove) não era permitida para crianças. Neste horário, logo depois do jantar, as crianças iam para a cama e lá liam um pouco de histórias infantis e dormiam cedo. De noite, não havia desenhos animados na televisão. Também não jogavam videogames nem ficavam nas redes sociais. A leitura à luz do abajur ou a voz amorosa dos pais que contavam histórias, permitia que o sono fosse conciliado mais tranquilamente. A rotina de dez a doze horas de sono diárias invadia a adolescência. Se frequentavam a escola pela manhã, não se mostravam sonolentos. Se iam à tarde, aproveitavam a manhã para brincadeiras e tarefas escolares. Os menores ainda podiam tiram um “cochilo” de tarde mas cenas frequentes hoje em dia de adolescentes que se jogam na cama depois do almoço e só acordam no final da tarde eram raras de serem vistas. Agora, a sociedade se organiza de forma muito diferente. Logo nos primeiros anos de vida, a tecnologia é usada para distrair as crianças. Muitos estímulos, o tempo todo, e uma resistência muito grande das crianças em ir pra cama. Os pais que, na maioria das vezes trabalham fora, usam a noite para aproximarem-se dos filhos e isso também retarda o horário de ir pra cama. Mas porque estas mudanças podem interferir nos processos de desenvolvimento e aprendizagem?

Nossa noite de sono é dividida em duas principais etapas. Em uma delas, o cérebro encontra-se num estado de atividade chamado de fase de ondas lentas onde acredita-se que os circuitos neurais menos ativados permitam uma recuperação metabólica dos neurônios. Uma outra fase, chamada de sono de ondas rápidas (ou sono REM- da sigla em inglês que significa movimentos oculares rápidos), parece estar diretamente ligada à capacidade do cérebro de fixar memórias por um tempo mais longo. Assim, parede que durante esta fase do sono, os acontecimentos e aprendizados do cotidiano são selecionados pelo grau de importância, repetição ou relevância emocional que possuem. Estes dois tipos de sono se revezam durante a noite toda. Durante as primeiras horas de sono, mais tempo é dedicado ao sono de ondas lentas e à medida em que o tempo de sono vai ficando maior, estes períodos vão sendo substituídos por episódios mais duradouros de sono de ondas rápidas. Pode estar aí a explicação para o fato de que nos períodos em que estamos produzindo e fortalecendo novas conexões e circuitos nervosos, ou seja, na infância, nossa necessidade de horas diárias de sono também seja maior. Assim, um dos aprendizados mais importantes que podemos tirar de nossos conhecimentos neurocientíficos é que nossas crianças precisam dormir bastante e ter um sono de qualidade. Rotinas que favoreçam o estabelecimento de um ritmo adequado de sono são fortemente recomendadas e devem ser um objetivo fortemente perseguido na educação de nossos filhos.

Na escola, por mais que os professores procurem utilizar-se de materiais bastante estimulantes, dificilmente vão conseguir competir com o grau de estímulo que as novas tecnologias proporcionam. Muito do que precisará ser desenvolvido na criança é diretamente dependente da relação entre aluno e professor. Uma relação humana que requer o estabelecimento de vínculos afetivos e conquistas de confiança. Este tipo de relação precisa ser uma prática costumeira para a criança. Se no seu cotidiano a criança não tem espaço para ouvir e ser ouvida, se as relações que costuma desenvolver se dão através dos aparatos tecnológicos e com uma velocidade que depende da agilidade dos dedinhos treinados em tablets, os professores que precisam se dividir para dar atenção a várias crianças não serão tão ágeis em responder, interagir, estimular as crianças que já não sabem mais esperar. Isso não significa que as crianças não devam aproveitar os benefícios tecnológicos para desenvolver habilidades que estes recursos proporcionam. Jogar videogames ajuda no desenvolvimento de algumas habilidades motoras e cognitivas e isto não precisa ser deixado de lado. Mas não podemos esquecer que as relações humanas também precisam ser treinadas e desenvolvidas e é nestas relações que o indivíduo aprende conteúdos que só o espelhamento e a imitação proporcionam. Assim, nossas crianças precisam das relações humanas e para usufruírem disso precisam treinar seus cérebros para elas.

Outro aspecto que está ficando perdido na nova sociedade é a atividade física lúdica e variada. Optamos por colocar nossos filhos em aulas de natação, lutas marciais ou de ginástica olímpica, entre outras atividades físicas direcionadas. E é crescente o número de crianças que não querem trocar o videogame nem o computador por estas atividades. A atividade física direcionada favorece a disciplina mas por isso mesmo pode tornar-se tão entediante quanto as aulas expositivas da escola. Sabemos que a atividade física favorece o desenvolvimento cerebral e auxilia até mesmo adultos na resolução de problemas e tomadas de decisão. Mas o brincar desenvolve circuitos neurais novos a todo instante porque a brincadeira muda, a brincadeira pode ser inventada e a brincadeira não cansa nem entedia. Em especial, novas descobertas sobre o papel do cerebelo nos processos da cognição, uma estrutura do sistema nervoso envolvida no desenvolvimento das habilidades motoras, podem em breve trazer informações surpreendentes sobre o papel do desenvolvimento motor e da brincadeira para os processos pedagógicos da criança. Nesses nossos novos tempos devemos incorporar a tecnologia em nosso cotidiano e aproveitar dos processos que ela acelera e transforma mas não podemos deixar de desenvolver nossa mente associada a um corpo saudável, ativo, bem nutrido e descansado. A neurociência apresenta dados que reforçam essa necessidade.

Estes e outros temas serão discutidos no nosso curso “Neurociência aplicada à Educação” que tem duas novas turmas, uma intensiva no final de semana de 4 a 6 de abril e outra extensiva que acontecerá em quatro segundas-feiras à noite a partir de 31 de março.

Para maiores informações, clique nas datas acima ou consulte www.ineditacursos.com.br

Caso prefira, envie email para contato@ineditacursos.com.br ou ligue para 11-41111776

Espero vocês lá!

2 Comments

  1. Rone Lopes
      março 17, 2014 at 7:07 PM

    Sou aluno da Dra. Carla Tieppo no curso de Capacitação Profissão em Neurociência aplicada.
    Como trabalho com educação, ensinado Inglês conversação, e adorei o artigo sobre Neurociência Aplicada na Educação.

    O Artigo me ajudou, ainda mais, a considerar a ciência como uma forma de ajudar nossas crianças a aprenderem com mais qualidade comparado com a realidade atual. Continuarei com o Estudos para me aprofundar e assim pode ajudar PESSOAS.

    Parabéns pelo Trabalho, Dra. Carla Tieppo.

  2.   março 18, 2014 at 10:32 AM

    Obrigada pelo incentivo, Rone!
    Espero contribuir mais e mais com pessoas como você, comprometidas DE VERDADE com a formação de pessoas!
    Um abraço!

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