Muito além do necessário.

No mês passado, o Dr. Bennet Omalu revelou que encontrou lesões no cérebro do lutador de MMA, Jordan Parsons, durante a autópsia realizada após sua morte em um acidente de carro. Parsons foi atingido por um motorista bêbado e morreu depois de ficar 3 dias em estado grave no hospital. Porém, as lesões encontradas não têm relação alguma com o acidente. Foi a profissão de lutador de MMA que provocou o aparecimento dessas lesões. Mas o MMA não é um esporte?

Nosso conceito de esporte é muito positivo. Mesmo que você seja sedentário e não goste nem de esportes coletivos, sua opinião sobre o esporte não é negativa, certo? Você pode até não gostar, mas deve até sentir algum remorso por isso. O sedentarismo é péssimo para nossa saúde e a prática de atividades físicas está, na maioria das vezes, associada a uma maior qualidade de vida. Mas o esporte não é só isso.

O esporte é também uma prática competitiva. Desde sempre os homens demonstraram sua força e superioridade através de diferentes esportes. Como na guerra, a força física e a estratégia são instrumentos da vitória e ser um campeão está diretamente relacionado com a ideia de ser superior. E, além dessas características, os esportes também revelam seus campeões pela obstinação. Isso é ser um campeão. No esporte, a competitividade que é uma das marcas mais expressivas da nossa espécie, está na sua potência máxima e todos nós nos envolvemos nela, nem que seja na torcida. Algumas vezes, vamos muito além do necessário.

Para evidenciar heróis, as lutas estão em enorme evidência. Já era assim nos circos romanos. E, antes disso, na própria natureza. As competições por alimento ou posição social já aconteciam na base da porrada. Mas, o mais curioso é que ainda se continua praticando esse tipo de “esporte” mesmo depois de um número considerável de pugilistas terem desenvolvido uma patologia chamada encefalopatia traumática crônica. Seu desenvolvimento é lento e o aparecimento dos sintomas pode ocorrer bem tardiamente. No caso de Parsons, o acidente automobilístico antecipou seu diagnóstico, mas na maioria dos casos, a doença só pode ser diagnosticada quando os sintomas já estão evoluídos.

Essa encefalopatia se assemelha a doenças mais comuns e conhecidas, como alguns casos de Parkinson e demências, por ser uma taupatia. Nessas patologias, a proteína Tau está com o metabolismo alterado e a morte neuronal é progressiva e crônica. Mas o mais surpreendente é a causa da doença nesses casos. Enquanto a maioria das taupatias tem sua origem em alterações genéticas ou metabólicas ainda pouco conhecidas, a encefalopatia traumática crônica tem uma causa bem clara: a quantidade de traumas provocados por quedas, socos e chutes na cabeça do lutador.

imersao-blog3Há ainda quem defenda a luta como sendo uma prática comum na natureza e que nosso corpo e cérebro deveriam estar adaptados a isso. Não poderia haver argumento mais falho: um bom macho alfa, dominante na sua tribo, não participa de lutas cotidianamente. Ganha uma grande luta e depois é desafiado algumas poucas vezes durante seu reinado. Os machos dominados não ficam tentando a toda hora tirar o “cinturão” dele. E os traumas não são tão contínuos e crônicos como vemos nessas práticas ditas esportivas. Outros esportes que fazem vítimas demenciadas é o futebol americano, o rúgbi e o hockey.

Em um trabalho publicado no British Journal of Sports Medicine no início do ano passado, 224 lutadores foram avaliados e revelou-se uma importante correlação entre volume de áreas cerebrais, capacidade de processamento cerebral e o nível de exposição a traumas (número de lutas profissionais e anos de vida profissional lutando). Mesmo que não se verifique a instalação da encefalopatia traumática crônica, os danos morfológicos e funcionais já podem ser observados. Para maiores detalhes, leia o artigo na íntegra aqui.

Tanta gente preocupada em evitar doenças como Alzheimer e Parkinson e alguns dando a cabeça pra bater. Difícil compreender.


2 Comments

  1. Lêda Soares
      novembro 20, 2016 at 10:47 AM

    Bom dia Carla !! Parabéns pelo seu lindo trabalho !
    Sou Psicóloga, formada pela PUCMG, estudei neurociências na UFMG e faço pós em Neuropsicologia na faculdade de Ciências Médicas , MG
    Sabemos o quanto é difícil fazer ciência no Brasil, Mas ver pessoas como você renova nossa esperança.

    Carla, gostaria de saber mais sobre funções executivas quentes e frias. O que são, quais são, o por quê destes nomes?

    Grande abraço !!!

  2. grp_admin
      novembro 22, 2016 at 3:00 PM

    Olá, Lêda!
    O termo quente e fria para designar as funções executivas está relacionado à ideia de que há funções executivas que são mais cognitivas e abstratas e que estão desprovidas de conteúdo emocional (frias) e outras que são bastante dependentes das funções emocionais e motivacionais (quentes) Esses termos não são muito usados hoje porque é difícil distinguir uma coisa e a outra. As conexões entre sistema límbico e córtex pré-frontal parecem estar muito implicadas em todas as funções executivas. Assim, essa distinção parece ser mais didática do que prática. Espero ter conseguido explicar sua questão!
    Um abraço,

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